APRESENTAÇÃO
...Não
admira então que aquilo que está a resultar, na
prática - e o que está a resultar da prática
- possa ser novo, ser diferente.
As
reflexões que tem nas mãos surgiram de um arrumar
de ideias, provocado pela referida afirmação de
Ezequiel Ander-Egg: os paradigmas estão a mudar, desaquietando
quem estuda sobre e/ou intervem no social.
Fala-se,
em geral, de mudança de paradigma em relação
à história das diferentes ciências; quando
essa mudança acontece nas ciências sociais, então
provavelmente reflecte mudanças não só dos
conhecimentos mas também do real social - e implica
alterações da, na e para a intervenção
social profissional. Esta conclusão pessoal, talvez óbvia,
desencadeou um (gratificante) processo de clarificação
e sistematização de novos princípios que
se vinham revelando na prática profissional, de forma aparentemente
desligada entre si.
Após algum tempo de reflexão para conseguir chegar
a um primeiro esquema global, o presente
texto nasceu quase espontaneamente. Não como um produto
acabado, mas apenas como reforço de algumas conclusões
anteriores e ocasião de partida para novas questões.
Pode
ser lido como um ensaio (muito livre). Certamente não académico;
e sem pretensões a científico - pelo que se pede
desde já a sua tolerância para alguns saltos lógicos,
para várias extrapolações provavelmente indevidas,
para certas promiscuidades entre diferentes níveis
de questões, para uma lamentável falta de método
(então não era mais bonito ir do concreto
para o geral, por exemplo?) e para generalizada falta da tradicional
fundamentação teórica.
Apesar
de tudo isto, atrevo-me a pôr em comum estas reflexões...
porque:
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no
que diz respeito à intervenção
social, são ideias que a prática tem
imposto a muitos de nós (e o respeito pela
prática ainda é mais bonito...
mesmo quando os saberes de experiências
feitos não têm - ainda? - validação
científica);
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qualquer
eventual contributo para a justificação,
o reforço e avanço, no debate acerca
da evolução da intervenção
social, pode ser importante para as práticas
profissionais (e pessoais) de outros - como o está
a ser para mim;
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a
sistematização e a articulação
entre ideias de áreas diferentes me deu muito
gosto (quem diria, por exemplo, que obras de divulgação
das ciências naturais podiam ter a ver com o
nosso trabalho?)
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Este
conjunto de reflexões dirige-se, assim, a quem procura
que o seu trabalho constitua (ou tenda para a) intervenção
para o desenvolvimento social.
Como
diria o senhor de La Palisse, fazer parte de um todo-sociedade
implica que cada um/a de nós está sujeito às
suas condições estruturais e aos seus maneirismos,
mas também que influenciamos, por pouco que seja, a sua
evolução. Tomamos especial consciência deste
facto quando somos envolvidos por grandes alterações:
nós participamos nelas quer queiramos, quer não...
Tal como aprendemos com a Psicologia que "é impossível
não comunicar" (porque se tentamos não comunicar
estamos a transmitir a mensagem não quero comunicar);
ou tal como na literatura, "il n´y a pas de hors-texte"
- não há fora do texto, todo o contexto está
no texto (Jacques Derrida) ... - o nosso modo de viver e comunicar
participa nas mudanças e na sua orientação.
Quem
trabalha na área social é sujeito especialmente
envolvido e activo nas mudanças sociais. Sejamos animadores,
educadores ou professores, assistentes sociais, economistas, psicólogos,
sociólogos ou profissionais de saúde, quando lidamos
directamente com as pessoas somos confrontados com a sua evolução,
ao nível individual e colectivo, mas ao mesmo tempo agimos
sobre essa evolução (por exemplo, podemos pensar
na diferença registada, nos últimos anos, quanto
à consciência dos direitos do cidadão e nos
múltiplos planos em que nós, técnicos, agimos,
somos confrontados e re-agimos sobre a produção
dessa mudança).
Parece
por isso preferível que nos situemos e coloquemos, contribuindo
conscientemente para influenciar, de diversos modos e às
várias escalas, os cursos das transformações...
Não o fazer agrava os riscos de sermos joguetes, andarmos
à deriva ou tornarmo-nos "bodes expiatórios"
(embora nada nos garanta que, ao posicionarmo-nos, as nossas opções
e acções não venham a ser contrariadas por
efeitos perversos, dada a complexidade deste nosso mundo - mas
essa é uma outra questão: trata-se de uma ocasião
de aprendizagem, oportunidade de conhecermos melhor para
melhor intervirmos de futuro, isto é, no dia seguinte).
É difícil trabalhar neste contexto, quanto mais
não seja porque as alterações implicam crises;
mas as crises são a outra vertente das oportunidades...
O
quadro síntese apresenta uma
sistematização, entre as inúmeras possíveis
e sem nenhuma pretensão de exaustividade, de alguns eixos
que estruturam mudanças significativas; e de concretizações
ou reflexos dessas mudanças em diferentes campos científicos,
nas sociedades e na intervenção social profissional.
No
texto que se segue, após uma breve referência
às noções de paradigma, cada uma das
três secções se desenvolve a partir
de um dos vectores de alteração que me parecem
fundamentais:
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a
valorização, em diferentes campos e
modos, do papel do sujeito;
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o
aumento progressivo da velocidade das mudanças,
na evolução social e cultural;
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e o crescimento da complexidade.
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Os
temas das duas colunas intermédias do quadro apresentado
no esquema global não são
desenvolvidos (pode estar descansada/o!). Isto é, em cada
um destes três "capítulos", após
uma breve introdução sobre a questão central
passa-se à reflexão sobre as suas implicações
para a Intervenção Social.
Finalmente,
para terminar esta introdução, gostaria de
agradecer aos colegas e amigos que me ajudaram, dando feed-backs
e discutindo uma primeiríssima versão deste
documento. Se também quiser contribuir para este
debate, os seus comentários são bem vindos!
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