Apresentação
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OS DECISIVOS VALORES
DO SUJEITO

O esquecimento e o desprezo
dos direitos naturais do Homem
são as únicas causas das desgraças do mundo
(...)

Declaração dos Direitos do Homem e do cidadão / Constituição Francesa, 1793

O objecto é a continuação do sujeito por outros meios.
Os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor
não estão nem antes nem depois da explicação científica
da natureza ou da sociedade.
São parte integrante dessa mesma explicação
.
Um discurso sobre as ciências, Boaventura S.Santos


"Estamos conscientes quando sabemos que existimos; e temos uma mente quando monitorizamos os nossos estados mentais" diz G. Gallup, citado em Sombras de Antepassados Esquecidos. Concordamos com estas definições? "Por estes critérios, os chimpanzés, os orangotangos e os golfinhos estão conscientes e têm mentes"...

A nossa inteligência é imperfeita; o nosso conhecimento pouco fiável. O natural pensar que o Universo girava em redor da Terra, a desvalorização das pessoas diferentes de nós e dos outros animais como tranquilizante para as nossas confusas identidades, a história da ciência e das culturas, em geral, lembram-nos que fomos, que somos, interpretes limitados e tendenciosos.

Nas últimas décadas, as mais variadas disciplinas científicas puseram em causa o postulado "da física e da metafísica do Ocidente que, desde o sec. XVII (opunha) a eliminação positivista do sujeito à eliminação, transcendental, do objecto" (Introdução ao Pensamento Complexo, Edgar Morin). Esta visão dicotómica está a ser substituída por noções como as de sistema aberto, de auto-organização em interacção com um ecosistema, de interdependência sujeito-objecto; com as quais deixamos de ter uma série de (hoje desajustadas) respostas... e passamos a ter muitas perguntas (trabalhosas, carregadas de incertezas e indeterminações, mas fecundas).

Sabemos, hoje talvez melhor que nunca, que para todos nós, humanos-sujeitos, as emoções desempenham um papel importante, até mesmo em relação a decisões "puramente racionais": sem a "côr" e o "sabor" das conotações emocionais todas as opções parecem neutras e as pessoas ficam incapazes de gerir a sua vida profissional e pessoal, tomar decisões, ter gosto em viver - embora possam ser excelentes a fazer cálculos matemáticos (O Erro de Descartes).

Estamos também hoje, a bem ou a mal, a aprender sobre as relatividades, até sobre a mais dolorosa: a nossa própria.Em termos individuais e em termos de raça, somos um fugaz instante...

Fazendo o Big Bang corresponder ao princípio de um ano, o Homo Sapiens só iria surgir por volta das dez e meia da noite do dia 31 de Dezembro; o Renascimento, os Descobrimentos, inaugurariam o último segundo do ano... Deste modo, é muito recente a nossa evolução num velho universo.

  Ao mesmo tempo, do ponto de vista dos sujeitos, é demasiado longa a história da conquista da liberdade, dignidade e direitos da pessoa (já nem falando da justiça social...):
 

Avanço dos Estados de Direito e da Democracia, no mundo contemporâneo

1900 Talvez uma meia dúzia, dentro dos quarenta e três Estados-Nação então reconhecidos, começavam a merecer esta classificação; no entanto, e por exemplo, o voto excluía muitos Homens e todas as Mulheres....
1945 Iniciou-se o boom democrático no Norte do planeta e especialmente no Ocidente, coincidindo com a democratização da Alemanha, Itália e Japão; havia poucas excepções, nos países pobres recém-independentes, à regra dos regimes autoritários
1980 De cento e vinte e um países reconhecidos, cerca de trinta e sete eram (mais ou menos) democráticos - o que equivalia aproximadamente a trinta e cinco por cento da população mundial
1988 Em cento e noventa e três países, cento e dezassete estavam largamente democratizados, correspondendo a cerca de cinquenta e quatro por cento da humanidade.
 
(Dados: Review "Freedom´s Journey", The Economist)

 

O crescimento da cidadania é simultaneamente um produto e um poderoso (re)agente, em cada sociedade. Os direitos cívicos alargam-se e implicam novos actores em novos campos; as Organizações da Sociedade Civil (OSC e não ONG. Já cresceram o suficiente para não serem definidas como "não governamentais") assumem novos protagonismos sociais.

Os Direitos Humanos, consagração do princípio de que todas as pessoas têm a mesma natureza e devem ter acesso, em liberdade, a iguais oportunidades, são simultaneamente uma evidência e uma espantosa realização; uma viragem e um (novo) ponto de partida, a nível individual, social e político.No entanto, e usando um eufemismo, este reconhecimento do valor da pessoa não tem tido uma ascenção linear: não só muitos países não reconhecem, política e socialmente, os princípios de direitos da pessoa e justiça social, como mesmo nos que os reconhecem não é facil distinguir tendências (por exemplo, será que os dois pólos, liberdade e igualdade, se repelem mutuamente?).

A consciência de que estas situações a nível mundial nos levam a um balanço negativo (até porque o carácter insuportável e absoluto do sofrimento dispensa quaisquer estatísticas) não nos deve impedir de ver de mais longe, guardando também essas perspectivas: para um escravo ou um servo, para quase todas as mulheres ao longo da História, provavelmente para todos os operários de há cem anos, as correspondentes situações, problemas e contradições no mundo mais ou menos desenvolvido de hoje (o Norte do planeta) constituiriam comparativamente um quase-paraíso...

Infelizmente, o inverso também é verdade para grande parte dos habitantes de países pobres, do Sul - em especial para a África de antes da sangria esclavagista, em que provavelmente a maior parte das pessoas vivia melhor há quinhentos anos do que vive hoje.

A inter-acção e inter-reacções entre cada sociedade e este "agente transformador", os Direitos Humanos, variam tanto que provavelmente nem sequer são completamente visíveis - ou entendíveis - para os "de fora", dada a opacidade intercultural (que quer dizer, por exemplo, que não podemos conhecer os factores ou factos que nos anunciam como estrangeiros, num outro território cultural). Por isso, em vez de especulações sobre a dialéctica Direitos e democracia versus Identidades culturais, parecem mais úteis os esforços concretos de aprofundarmos o respeito por ambos estes pólos, no nosso trabalho.

Na intervenção com comunidades e grupos, mas também com famílias e com cada pessoa.

A dignidade, a especificidade, a totalidade de cada ser humano são uma fonte de permanente surpresa e aprendizagem. A partir desta atitude de abertura, de respeito, quem trabalha com pessoas pode aprender tudo o que é mais importante.



 

EM FOCO OS RECURSOS PRÓPRIOS

E A SUA MOBILIZAÇÃO

. . . Quando temos os grandes tesouros diante de nós, não nos apercebemos.
Paulo Coelho, O Alquimista

 

Uma mudança de perspectiva pode revelar diferenças surpreendentes: uma volta no caleidoscópio, uma acréscimo de informação significativa, uma maneira diferente de entrarmos em interacção, uma luz especial, ... - e não só vemos mas também entendemos e agimos de outro modo.

Da mesma forma, são novos os caminhos abertos e é grande o acréscimo de qualidade, quando nos dirigimos aos recursos - e não tanto às necessidades - na intervenção com cidadãos, grupos e comunidades. Esta verdadeira "inversão de focagem" (que é lógica na linha de crescente atenção aos valores próprios, ao desenvolvimento endógeno), ao ser por nós adoptada de forma decidida e sistemática, não só está a produzir melhores resultados mas vai-se também revelando um novo modo de trabalhar, a todos os níveis.

As necessidades constituem, em geral, o motor que nos leva à acção; e sem dúvida que é necessário rigor na sua análise. Mas são os recursos - os bens, as capacidades, as potencialidades - dos próprios, do local, que mais podem contribuir para que uma estratégia de intervenção seja sustentada e se desenvolva adequadamente.

"A evidência histórica mostra-nos que o desenvolvimento significativo de uma comunidade tem lugar quando os próprios estão empenhados e investem num esforço de melhoria; os contributos de fora têm que ser subsidiários a esta rota, não podem determiná-la" (John Mcknight, Northwestern University, dossier Healthcare Forum). Um rio externo de recursos pode até causar devastação em vez de deixar benefícios... Basta pensarmos na ineficácia de tanta da ajuda externa aos países em vias de desenvolvimento ou, noutra escala, nas decepções que já sofremos, na prática profissional, em algumas estratégias de intervenção (involuntariamente mais nossas que deles) com dada família ou pessoa.

A inventariação, valorização e apoio ao protagonismo dos bens activos e das habilidades de um cidadão ou de uma comunidade é para nós, hoje, um desafio mais adequado (tecnicamente mais interessante, socialmente mais útil e pessoalmente mais enriquecedor) do que a atitude diagnóstica, ex-catedra, exterior, dirigida sobretudo às fragilidades.

Com faltas, fraquezas e necessidades não se constrói certamente nada de sólido... Por isso, falamos menos de diagnóstico e mais de avaliação, de estudo (antes, durante e depois da intervenção propriamente dita; ou, melhor dizendo, dentro da intervenção, em momentos fortes e continuamente) em que privilegiamos a descoberta dos bens, capacidades e potencialidades endógenos: para que, conhecendo, os possamos dinamizar. Por isso, mais do que de concepção, tratamos da identificação de projectos, de acções que emergem de dada realidade. Por isso andamos às voltas com a mobilização de recursos, percebendo que os determinantes são os de dentro, não os de fora.

Precisamos de aprender a pensar e agir melhor nesta nova lógica, facilitando a auto-organização, promovendo autonomias e capacidades, tentando nunca embarcar numa intervenção de substituição mas, por outro lado, ajudando a desenhar as alternativas e os "inéditos viáveis" que os próprios possam utilizar para construir um seu projecto.

Os recursos próprios são "os blocos da matéria prima essencial na construção do desenvolvimento local, que só com a sua mobilização conseguimos promover"(Healthcare Forum, idem)

Quando "trabalhamos para" utentes, beneficiários ou clientes, dirigimo-nos a consumidores. Como é suposto que os consumidores têm direitos, em geral, e direito a bons serviços em particular, esta é uma perspectiva com virtualidades, particularmente em Portugal. Mas também com importantes limitações e riscos, tais como contribuir para o crescimento da passividade, da desresponsabilização, do consumismo, de egoísmos... Muitos de nós sentimos com crescente clareza que é mais adequado trabalharmos com pessoas, cidadãos, associações, comunidades - produtores da vida local.

"O meu desenvolvimento acontece quando eu ME invisto. (...) Neste crescimento auto-gerido têm especial peso as dinâmicas associativas: associarmo-nos é assumirmos o nosso poder (por oposição, votar é delegar esse poder)" (Healthcare Forum, idem). Reforçar as dinâmicas associativas numa comunidade e a coordenação de esforços dos seus grupos e organismos, é consolidar os tecidos sociais - e haverá maior recurso local?

Aos diferentes níveis (pessoal, familiar, de grupo, comunitário, social),importa assim promover e valorizar, entre outros recursos:

Os patrimónios e bens materiais, também dos pobres (Estudando a economia informal, as micro actividades e outras realizações, ...)

As identidades e outros patrimónios imateriais (Integrando a perspectiva social com a cultural, a económica, a educativa, a desportiva, ...
As histórias, os processos, a evolução
(Abordagens diacrónicas)
As ligações entre o todo, as partes e os contextos
(Abordagens sincrónicas)
As iniciativas e as lideranças locais
(Facilitando sistematicamente informação e formação, apoiando a sua organização)
As pontes entre o sector público, o sector privado e o terceiro sector ou terceiro sistema (economia social)





À NOSSA FRENTE UMA pessoa,

COM A SUA FAMÍLIA E A SUA HISTÓRIA

 

"O decisivo é escondido"
(continua a ser; em camadas, profundidades sucessivas. Tantos anos depois.)

Maurice Bellet no Mudar da Vida

... " o respeito, sempre,
pela pessoa à vossa frente
- sem preconceitos redutores; com abertura, para se surpreenderem
com as facetas, as riquezas, os inesperados de alguém que tem,
antes de mais, direito à sua totalidade e à sua dignidade"

(versão muito livre da conclusão, por Micael Pereira,
da cadeira Antropologia Cultural, 2º ano, ISSSL, Julho 1978)

 

As ciências exactas estão a abandonar visões mecanicistas do mundo - o qual, aparentemente, não é uma superengrenagem de rodas-dentadas-causa-efeito, mas algo bem mais complicado, como sabemos.
Nas últimas décadas consolidaram-se outras visões do mundo, da vida e do conhecimento.

As relatividades, as indeterminações, a crescente consciência da complexidade das interacções e da multiplicidade das perspectivas, tornam a ciência um discurso na primeira pessoa, em que o rigor é antes de mais a qualidade da dúvida, da abertura do nosso posicionamento. Da insegurança, como diz Boaventura Sousa Santos (Um discurso sobre as Ciências).

Especialmente nas ciências sociais e humanas, considerar o Objecto - os outros - como alvo do conhecimento e da acção de um Sujeito, agente neutro - nós - significa optar por uma simplificação que não se pode aplicar sem mecanismos redutores, empobrecedores.

Assim, contribuir para a moda de trocar sujeitos-pessoas por "objectos de intervenção" (moda esta persistente, nas linguagens do trabalho social. Porquê?), substituir grupos de cidadãos e suas dinâmicas por "grupos-alvo" (PAM!!! ...bom tiro?) e reduzir a Comunidade em que nos queremos inserir a "população" (que são sempre os outros), corresponde a uma maneira de pensar desadequada no modo e no espaço-tempo. Isto é, além do Mais, já não se usa... E ao falarmos de pessoas, grupos, comunidades, estamos a exercitar abordagens inclusivas e atitudes de respeito, mais adequadas e eficazes.


Se nos dirigimos não a objectos mas sim a sujeitos, é natural que as abordagens mais adequadas tenham em conta a sua história, os percursos, as ligações, os seus recursos próprios (aos vários níveis) e a sua globalidade - as partes e os todos, aos níveis individual, familiar, comunitário, mas também sectorial ou regional. Nos estudos e nas intervenções as dimensões sincrónica e diacrónica, os olhares especializado e globalizante, complementam-se.

Felizmente, para além das abordagens sistémicas e do planeamento integrado e criativo, há técnicas que nos ajudam a concretizar esta linha metodológica: desde a história de vida (quer em sentido restrito quer, aliás, também em sentido lato: a preocupação em perceber e seguir o fio condutor da história e das histórias, da visão da vida da pessoa e da família, dos grupos sociais e do território, dos percursos, das experiências adquiridas, sobretudo tal como se apresentam aos próprios) ao mapping da comunidade, desde instrumentos para registo como o genograma até aos métodos de pesquisa-acção que podem integrar continuamente novos dados sobre a evolução das situações de pessoas, grupos e regiões.



 

VALORIZAR O RELACIONAMENTO
como meio (ambiente e instrumento);
E ENTENDER A CIRCULARIDADE DA COMUNICAÇÃO


Trato alguém como ladrão e ele rouba-me; Trato alguém como a um prícipe
e ele comporta-se como um rei.

(Provérbio Chiês, citado no curso Aikido de Negociação)

"O relacionamento é um recurso natural,
sub-aproveitado..."

(Lewis Griggs, Healthcare Forum)

 

A intervenção social faz-se na relação com pessoas. Mesmo quando intervimos a níveis mais latos, a concretização da nossa acção acontece, de forma geral, em relacionamento com outros. O nosso "ambiente de trabalho" mais importante é a relação (e não Windows ou Mac, ou a Net. Por enquanto?). Trabalhamos em relação e trabalhamos a relação.
O que não é fácil... Antes de mais, porque relacionarmo-nos é comunicar com o diferente. O desempenho das profissões de intervenção social, e neste caso especialmente do Serviço Social, implica constante abertura:

com os cidadãos, ajudando à clarificação dos seus desejos, prioridades e projectos. Sabendo que para o fazermos tem que ser construída uma relação de confiança (mútua, como é obvio; passe o pleonasmo) que exige verdade, respeito, solidariedade; e que contribuir para a construção desta relação é uma das nossas maiores responsabilidades profissionais... Como, por exemplo, se nota claramente na situação de trabalho individualizado, na entrevista ou atendimento: partimos da observância estrita das normas de informação "realista", sinceridade, empatia e apoio às dinâmicas e iniciativas próprias, autonomizantes; e com o passar dos anos damos por nós a criar, a partir destas bases, como se de uma arte se tratasse (como a arte de que se trata, se não dispensarmos a atenção)

dentro da(s) nossa(s) equipa(s), gerirmos a diferença sabendo reconhecê-la, assumindo-a e valorizando-a como instrumento de flexibilidade e adaptação. A diversidade é inevitável, embora em diferentes graus. Se for mal tolerada actua como um veneno nas pessoas e nos grupos; se for bem vivida, bem gerida, enriquece cada um/a de nós e as nossas equipas, optimizando os recursos humanos, que são os mais importantes.

a nível institucional e social, pensando a nossa posição, colocação, interacções, reacções e iniciativas - sem nos demitirmos, nem demitirmos os outros, das respectivas responsabilidades ...

 

Se "cada um de nós é um ponto de vista", uma perspectiva, é por sermos o produto-em desenvolvimento de um conjunto particular de condições de partida, de circunstâncias, de passado familiar e suas influências, de vivências e de escolhas-dentro-dos-possíveis, de referências e de horizontes. Só a "troca de informação" nos permite comunicar com o outro, sistema tão complexo quanto nós, tornando possível uma aproximação ao contexto em que - para ele/a, como para nós no reverso da medalha - têm determinado significado, lógica "naturalidade" e auto-justificada sequência os actos, as palavras ou as omissões que tecem a vida (mesmo aqueles que parecem aos outros, mas não ao próprio, disparates, erros ou defeitos).

Estas condições imateriais para a comunicação são impossíveis de realizar plenamente, além de serem enganadoras, traiçoeiramente (ab)usando dos nossos mecanismos de projecção, identificação ou rejeição.

 

Como se tal não bastasse, o processo de comunicação não é linear,

mas sim circular. Não é

emissor ---------------- receptor
(mensagem)

mas sim um emaranhado de inter(re)acções (provavelmente também nos sentidos físico e químico do termo) que poderemos,
simplificando, representar como

(condições)
percepções - emoções - interpretações
SUJEITO A
SUJEITO B
reacção
 
reacção...
reacção à reação
 

Pois... a comunicação é uma con-fusão, como muito bem sabemos da experiência de todos os dias.

Talvez também por isso se tornam tão importantes as condições tangíveis (espaço, ambiente, privacidade, disponibilidade, tempo, ...), nomeadamente para o trabalho em relacionamento directo com pessoas e grupos. Tudo o mais já é suficientemente difícil e delicado para dispensar obstáculos adicionais...

 


 

ADVOCACIA (estando do lado de cada pessoa, ajudando a criar condições e acessos),
EMPOWERMENT
(reforçando-a, na sua cidadania)
e PROMOÇÃO DAS AUTONOMIAS
(em vez de protecção)


AS RESPOSTAS QUE OBTEMOS DEPENDEM,
EM ÚLTIMA INSTÂNCIA,
DAS PERGUNTAS QUE FAZEMOS

em Aikido de Negociação, P. Carvalho

 

... e as perguntas que fazemos dependem, antes de mais, da nossa atitude. No mundo moderno os contextos culturais e científicos criaram paradigmas para a acção social que balouçam entre o proteccionismo (Técnicos e outros agentes fazem, pobres colaboram) e o objectivismo (Técnicos e outros agentes decidem, pobres fazem). Estas são visões menorizantes, redutoras, aos olhos de hoje. Na pós-modernidade começámos a perceber, fragmentada e tardiamente, que está em causa a dignidade da pessoa-inteira, a concretizada cidadania. Quanto à generalização das consequências desta mudança, parece que ainda a procissão vai no adro.

No mundo real - aqui e agora - a perspectiva de promoção da cidadania é tanto mais fecunda quanto integrar outros princípios e práticas, tais como "a prioridade ao inadiável" (na expressão de Alfredo Bruto da Costa): o sentido da urgência, do insuportável das situações de sofrimento, é o primeiro requisito para lutar contra a pobreza e a exclusão; sem esta consciência, o reforço da cidadania poderá tender para novas formas de burocracia mais desumanas que qualquer prepotente voluntarismo, pater ou maternalista.

 
Basear a prática profissional numa perspectiva de advocacia social e de empowerment, apoiando o acesso à informação, aos direitos básicos e à participação cívica, é um desafio que ainda não sabemos onde nos vai levar, mas que já insinua podermos ir longe, em diferentes níveis: o nível do trabalho individualizado; o nível dos grupos - formais e informais, existentes, emergentes ou "possíveis"; o nível local; e o nível da influência sobre as políticas, relacionado com todos os outros.


Em termos sociais e em termos técnicos, é uma colocação tão mais eficaz e compensadora, em relação à acção social tradicional, quanto o construir de uma ponte o é em relação a esvaziar o rio com baldes, passe o lugar-comum. Como nada é de graça, esta nova postura exige que nós, técnicos, cultivemos uma atitude de aprendizagem, de aproximações, integrações e construção progressiva, de procura de rigôr, de aperfeiçoamento técnico e de desenvolvimento pessoal.

Visamos o desenvolvimento e o crescimento das autonomias. Em termos ecológicos (e parece que também em termos sociais) ao contrário do que pode parecer à primeira vista autonomia implica não eliminação mas sim multiplicação de dependências. "Quanto mais autónomo é um sistema vivo, tanto mais ele é dependente em relação ao ecosistema - a autonomia pressupõe complexidade, que por sua vez pressupõe riqueza de relações com o meio" (O Paradigma Perdido, Edgar Morin,1973).

Isto é, em linguagem um pouco diferente de vinte anos depois, os Sistemas Adaptáveis Complexos, como de certo modo o é cada ser humano, são abertos, auto-organizados e multidependentes (O Quark e o Jaguar). Apoiar a multiplicação e diversificação das suas dependências é contribuir para possibilitar o exercício do seu direito à liberdade...

O direito à diferença. Direito a fazer o seu caminho, a escolher-se sem invadir nem ser invadido por outros - embora todos sejamos interdependentes; direito a que a nossa vida nos torne cada vez mais nós próprios, que nos revele (o tempo, esse grande escultor, como escreve M. Yourcenar).
 
O direito a si próprio, até para opções consideradas de "não-integração"...

Lutar contra a exclusão, quando esta é produzida pelos mesmos sistemas e é um fora que faz parte do todo, por certo que é um caminho pleno de paradoxos; no entanto, cumpre-nos trabalhar para a concretização dos direitos à(s) inserção(ões)... Porém, hoje importa também estarmos pre-ocupados - antes, durante e depois do imperativo atendimento à urgência; dentro, fora e para além do cumprimento de contratos - com o assegurar, colectivo, a cada cidadão, das condições para a maior igualdade de oportunidades possível (e não com o uso que é feito dessas condições. Podemos dizer que esta é a fronteira da nossa missão?).

 

Numa sociedade como a nossa, em que por exemplo não é feita a confrontação das declarações fiscais com os bens e gastos efectivos (sabendo nós como a fiscalidade é um indicador precioso sobre um Estado); num sul da Europa em que as desigualdades não param de crescer e em que, segundo dados recentes citados por Vincenc Navarro, a banca tem os mais baixos custos e os mais altos lucros da UE; em que os deficits do Estado de bem estar são supridos pela família - isto é, pelas Mulheres, sobretudo dos 35 aos 65 anos (que em Espanha têm em média três vezes mais doenças que qualquer outro grupo e assumem, também em média, quarenta e quatro horas semanais de encargos familiares... em Portugal será melhor?) temos certamente mais com que nos preocupar do que com estritas fiscalizações do cumprimento pelos utentes , isto é, os pobres, de quadros de preceitos relativos, mas absolutizados, tais como O que é esbanjar e O que é consumo criterioso? (episódios da "série Quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete? ").

 

Uma outra reflexão, entre muitas possíveis, noutra vertente desta importância das condições de partida - o modo como nos dirigimos áqueles com quem trabalhamos e o modo como vemos as nossas responsabilidades - debruça-se sobre o equilíbrio delicado entre o apoio necessário e a efectiva promoção das autonomias: "apoio a menos" pode ser um desleal "tirar o tapete de debaixo dos pés"; "apoio a mais" tende a inviabilizar a apropriação, adequação e sustentabilidade das iniciativas de pessoas ou grupos (não nossas)... Ponderando todas as variáveis, talvez que uma "regra" seja assegurar o apoio indispensável e não mais que esse, não ultrapassando os limites impostos pela autonomização possível e pela autonomização necessária. Isto é, e como exemplo, uma pessoa numa situação de ruptura, de grande sofrimento, precisa geralmente de atenção calorosa, próxima e sistemática; pelo contrário, por exemplo no acompanhamento a uma iniciativa económica de um/a empreendedor/a, a dependência excessiva do apoio técnico não revela só dificuldades pontuais - mas remete provavelmente para a inadequação da natureza do projecto, face àquela pessoa nesse momento, nessa situação (quem não consegue tratar das papeladas sózinho não vai longe, nesta nossa sociedade, numa actividade por conta própria); por isso, o nosso conselho técnico deve ajudar a considerar outras alternativas...

Podemos assim acrescentar um pequeno grande pormenor: autonomia significa multiplicação de dependências, se dentro de rotas traçadas pelos próprios.


CRÉDITO, MAIS QUE SUBSÍDIOS

 

O crédito, sem uma firme disciplina, não é mais que caridade
e a caridade não ajuda a superar a pobreza

Muhammad Yunus

 

Pensemos na nossa própria experiência pessoal: em geral, na relação com outra pessoa, iremos desenvolver uma interacção positiva se e enquanto partirmos construtivamente daquilo de que gostamos nela.

De igual modo, em termos profissionais, a abordagem de cada pessoa, grupo ou comunidade deve basear-se nos seus valores, trunfos, qualidades. Só depois desses cidadãos terem este direito básico assegurado - o direito à confiança, no fundo o direito à dignidade humana - poderemos desenvolver, conjuntamente, processos positivos.


Se estamos a verificar que intervimos melhor quando nos centramos nos recursos, não nos espanta que estejam a ter tanto êxito os programas de micro-crédito no combate à pobreza. Como diz a Associação Nacional de Direito ao Crédito, as pessoas são merecedoras de todo o crédito.

É bom olharmos atentamente também o que se passa no resto do mundo. No mais famoso exemplo, em 1976, no Bangladesh, iniciou-se um projecto de investigação-acção que pretendia tornar acessível aos mais pobres o recurso aos empréstimos bancários em condições que lhes permitissem romper os circulos viciosos da pobreza. Para tal, o Dr. Muhammad Yunus organizou pequenos grupos nas aldeias e recriou a filosofia das mutualidades e das cooperativas. Hoje, o Grameen Bank trabalha em trinta e sete mil aldeias e tem mais de dois milhões e trezentos mil beneficiários (dos quais mais de noventa por cento são mulheres); em 1998 ultrapassou os dois biliões e meio de dolares de empréstimos, com uma taxa de reembolso de noventa e sete por cento (o que é certamente invejado pelos outros bancos).

Esta é uma experiência exemplar também porque o "Norte-rico" aprendeu com o "Sul-pobre": da Ásia e de África, iniciativas semelhantes estenderam-se a França, Estados Unidos, Noruega ou Canadá. No ano de 1998 desenvolviam-se já em cinquenta e oito países; agora pelo menos em cinquenta e nove, incluindo Portugal onde em Dezembro desse ano se iniciou a actividade da Associação Nacional de Direito ao Crédito.


REFORÇO da sociedade civil

Ajudando a construir pontes.
Fazendo a manuntenção de canais de comunicação.

 

Muito do nosso trabalho deve dirigir-se ao reforço e maior visibilidade dos que geralmente não são vistos nem ouvidos. Para além de apoiarmos activamente o acesso de cada pessoa aos seus direitos e bem-estar, contribuímos para multiplicar a sua capacidade de acção quando apoiamos as dinâmicas colectivas, desde a assessoria a uma pré-associação até à promoção de encontro em grupos das pessoas que partilhem interesses e/ou problemas.

 

..."Reforça-se a noção da utilidade social e não apenas económica de uma actividade (como no caso de uma cantina, de uma mercearia ou de uma cooperativa de consumo comunitária; ou na reabilitação colectiva das suas casas pelas famílias que se organizam; ou simplesmente no projecto de viagem em férias conjuntas, de um grupo, ...) - e obtêm-se melhores resultados, nestes processos colectivos que potenciam as intervenções individuais e contribuem para o desenvolvimento solidário", como conclui M. France Freynet.

Ao reforçarmos a cidadania activa de cada pessoa estamos a possibilitar que ela fortaleça a consciência cívica local. Ao apoiarmos grupos informais (existentes, emergentes ou "possíveis", os tais que podemos sugerir a quem partilha interesses e problemas), contribuíndo para que se organizem acima da "linha de visibilidade" social (na expressão do Orlando Garcia), fortalecemos a "infraestrutura cívica" (na expressão da Liga Cívica Americana). Ao levar mais longe, em vários níveis e de vários modos, a participação, a articulação e a capacitação, reforçamos os tecidos sociais locais - de que é parte essencial a sociedade civil.

Em concreto em Portugal, hoje, parece ser decisivo o crescimento desta dimensão colectiva da cidadania, para corrigir ou prevenir desequilíbrios que são ou podem ser de fundo. Temos, enquanto técnicos do trabalho social, um papel nestes processos. É importante contribuirmos para que a consciência individual e colectiva de cidadania continue a crescer. É urgente promovermos e capacitarmos os grupos, as Associações e as IPSS existentes no país real, quer por dentro das suas estruturas internas (para quem lá trabalha), quer com parcerias activas e reforçantes (para quem com elas articula) - com exigência mas com respeito, e não com tutelas. Os cidadãos e as suas organizações não são tutelados (em princípio, há uns dois séculos, pelo menos...). Antes pelo contrário: são maiores, capazes e deviam poder vigiar cuidadosamente um Estado que tem um desempenho (ainda?) "francamente duvidoso". Dito de outro modo, é politicamente incorrecto menorizar organizações da sociedade civil.

A cidadania, a dignidade do ser-de-direitos, tem sido um "acelerador" de mudanças, mas é também um bom quadro de referência: deve estar sempre antes e acima de tudo... Os mais fortes argumentos a favor de eficiências, de avanços, de estratégias ou tácticas não devem ultrapassar este marco - não só não fazer atropelos, mas activamente respeitar e procurar promover a pessoa, o cidadão e a sociedade civil, é o primeiro requisito que deve interpelar os conteúdos, os métodos e os tempos do nosso trabalho.

Ajuda-nos, enquanto referência, a estabelecer fronteiras: não podemos aceitar ou sequer ignorar procedimentos sociais, políticos, institucionais ou outros que agridam, ponham em risco ou diminuam a dignidade da pessoa e os direitos do cidadão.

Nas conjunturas complexas, até confusas, em que nos encontramos hoje - onde tantas dinâmicas e grupos de interesses, profissionais, corporativos ou outros, se cruzam em tecidos organizacionais opacos, quase-caóticos - este pode e deve ser o principal eixo comum às nossas finalidades e nosso indicador-referência: como diz Eduarda Oliveira, "se somos (social, profissional e deontologicamente, mas também investidos pelas instituições) responsáveis, perante o cidadão, pela articulação de respostas e pelo serviço que a nossa organização lhe presta, então também temos que assumir a responsabilidade de lutar, na organização, pela qualidade de serviço que se está a prestar ao cidadão".

Clarificar disfunções e suas consequências, garantir a transmissão deste eco cívico, para "dentro" e para "cima" na Instituição, é um inicial e fundamental passo que nos cabe: se damos voz à organização, junto da pessoa, ainda mais devemos dar voz à pessoa, junto da organização. Interface não é só num sentido ...

Esta dimensão da intervenção social é necessária não só ao nível individual mas também no tratamento, reflexão e informação sobre dados globais, significativos, do nosso trabalho - a avaliação, sua comunicação e sua(s) visibilidade(s).

Hoje, numa situação em que a exclusão é um fenómeno social crescente também na Europa, os Trabalhadores Sociais situam-se em "campos minados" de paradoxos: se não lhes damos "a volta", assumindo as tensões e centrando-nos na cidadania, com capacidade estratégica, estamos bem colocados como candidatos a vitímas das contradições dos sistemas.

Por outro lado, ao reforçarmos os cidadãos e a sociedade civil, ao qualificarmos, inovarmos e aperfeiçoarmos a nossa acção e ao intervir estratégicamente em todos os níveis (com as pessoas e grupos; com a nossa equipa; com a instituição; com os parceiros locais; com a comunidade ...) estaremos também, muito provavelmente, a ganhar espaço, autonomia técnica e afirmação profissional.

 

 

 

 

© Mª do Rosário Advirta 2001